LAMENTO VAZIO
– Confiar, tia, às vezes, resulta em situações traumáticas.
– É verdade, Milena. – Existe o lado bandido, tia. Mas é lado bandido. Então o lado que não deveria ser bandido não deveria se comportar como o lado bandido. Porque, se comportando como o lado bandido, formaria uma bandidagem só. – Filosofando, Milena? – Veja se tenho razão, tia. Uma senhora, depois de observar uma jovem mulher acompanhada de um garoto especial, se aproximou e perguntou se haviam gostado do filme. “Gostamos sim.” Respondeu a abordada. “O garoto também?” “Também.” “Observei que ele chorou por você ter negado-lhe sorvete.” A jovem retrucou que o dinheiro era curto, portanto, ou cinema ou sorvete. Assim era com tudo. Agia daquela forma para que o dinheiro sobrasse e fosse suficiente para custear a condução do garoto, pois estudava. Ao ouvir a explicação, a senhora meditou e perguntou quantos anos o garoto tinha. Respondeu que tinha dez anos. “E você?” “Trinta e três.” A senhora disse que a decisão ficaria a critério dela. Levaria, se assim desejasse, à associação 'Lamento Vazio'. – Ai, ai, Milena… – O que foi, tia? – Continue. – A jovem retrucou: “Por favor, senhora, em nenhum momento me lamentei.” “Faz milagres.” Assegurou a senhora. – Assegurou que a Associação Lamento Vazio fazia milagres. – Isso, tia. A convidada aceitou o convite. Dirigem-se ao veículo da senhora e adentram: a senhora, a jovem mulher e o garoto de dez anos de idade. Durante o trajeto, a jovem contou sua história. Fora casada, mas depois que o filho nasceu, o marido descobriu que o mundo era para os fortes e a abandonou. Não trabalhava porque não tinha com quem deixar o garoto e não havia creche pelas redondezas. A situação não era caótica uma vez que possuía casa própria e recebia uma pequena ajuda do Estado por conta da situação. “Chegamos.” Observou a senhora. Desceram, caminharam e adentraram o prédio. Durante o atendimento, a jovem escutou do profissional que o que existia, continuaria existindo. Porém, a partir daquele momento, seria problema estritamente dela. – O quê, Milena? – O que existia, continuaria existindo, tia. Porém, a partir daquele momento, seria problema estritamente dela. – Continue, Milena. – Dias depois, a jovem mulher, como sempre fazia, observava o filho brincando no quintal, depois de algumas horas de estudo. Em dado momento, avistou a habitual assistente social conversando com a desvairada vizinha. Meditando, aguardou pela aproximação da profissional… Exclamou a assistente social ao adentrar a casa: “Jesus, Maria, José! Quer nos meter em apuros, senhora? Digo-lhe: no relatório, que farei agora, constará o que ouvi. Pois, caso não o faça, o próximo colega delegado, para visitá-la, fará. Digo mais, senhora, não pense que o caso se limitará apenas no cancelamento da pensão. Foram dez anos. Cento e vinte meses se beneficiando indevidamente do Estado.” A jovem mulher, indignada, protestou: “Senhora, vocês acumulam na prateleira da repartição a minha foto em preto e branco!” – Já vi isso de perto, Milena. É horrível. Um dia conversaremos sobre um assunto que acredito não ser raciocínio exclusivamente meu. – Que raciocínio, tia? – Ninguém pede para nascer, Milena. Porém, uma vez nascendo, luz para iluminar momentos de escuridão se faz necessário. – É verdade, tia. – Em outra oportunidade conversaremos melhor, Milena. – Foi convocada a comparecer ao setor de benefício do Estado. O funcionário da repartição assim a recepcionou: “Qual o motivo do choro, senhora?” “Disseram-me que fui ingênua por ter escutado uma desconhecida.” “O que seria ser ingênua, senhora? Seria tentar escapar de um furto por uma das vielas do Estado?” Nada respondeu, tia. “Escutou alguma orientação?” Perguntou ele. “Escutei sim.” “Qual foi?” “O que existe continuará existindo. No entanto, de agora em diante, somente meus olhos enxergarão.” – Meu Deus, Milena. – Disse ele que ‘Lamento Vazio’ era uma associação respeitada e que atendia diariamente centenas de casos sob diversas ordens, considerados em 99%, como, de fato, lamentos vazios. A pensão já estava cancelada, pois não se fazia mais necessário e, consolando-a, pediu para não se avexar, pois a dívida para com o Estado sairia do sistema. Desejou-lhe sorte, tia! – Ninguém pede para nascer, Milena. Porém, uma vez nascendo, luz para iluminar momentos de escuridão, se faz necessário. – Portanto, tia, o lado que não é bandido não deveria se comportar como o lado bandido. Porque, se comportando como o lado bandido, formaria uma bandidagem só.
ILUSÃO OU FATO?